Minha morte

A Scarlet morreu.
Não sobreviveu à meningite.
Aquela jovem risonha, meiga, gentil e bonitinha, já não está mais entre nós.
Meus pêsames.
Mas, pensando bem, será que ela existia de verdade?
Será que o que você conheceu não foi apenas um cosplay de anime girl?
A Scarlet que eu conheci era uma farsa. Aquele sorriso fofo era pura enganação. Servia para esconder o tédio e o incômodo. Aquele estilo todo e as horas que ela dedicava para se arrumar eram apenas para mascarar os maus-tratos contra seu próprio corpo. Secretamente, ela já estava se matando. Se torturava para enfraquecer e esperava a morte chegar. Deitava em sua cama como se deita em um caixão. Afinal, apesar da atração por facas e locais altos, não considerava o suicídio explícito uma boa opção, porque estragaria seu disfarce.
Esperou, esperou, e a Morte chegou. Chegou para resgatar o que ainda havia de verdadeiro nela. Chegou para dilacerar o casulo que a sufocava e dar-lhe a única coisa que realmente desejava: suas asas.
Apesar disso, houve um preço a ser pago, pois a Morte não beneficia ninguém de graça.
A Scarlet que você conheceu… morreu.
Morreu no processo. Já estava muito fraca acabou não resistindo.
O que restou foi sua essência. A larva pelada. Aprendiz renascida, com todos os atributos resetados.
XIII deu lugar a 0 e vinte e quatro anos foram completados na UTI, que mais parecia uma maternidade.
Pois é,
a Scarlet morreu.
O que restou… foi eu.
Eu, que ainda estou aprendendo a andar, mas que, em breve, vou poder voar.
Eu, que vou vomitar toda podridão que esse corpo acumulou.
Eu, que vou sentir novamente aquilo que está reservado apenas aos plenos.
Contudo, o fantasma dela insiste em me assombrar; e o medo vem tomando conta. Portanto, preciso escrever para deixar claro para ela, para mim e para todos, que
aquela Scarlet morreu,
e quem vive agora sou eu.