Choque rosa

Não sei se ela entrou ali por obrigação. Nem parecia, mas, considerando que estava trabalhando, provavelmente foi. Conversou conosco e conferiu algumas coisas no quarto. Quando estava a se retirar, perguntou se tínhamos conhecimento de um caso de corrupção e morte em seu meio profissional, divulgado pela mídia nos últimos dias. Eu havia visto, superficialmente. Comentei, em resposta, e não obtive tanta atenção. “É como minha vó dizia: esse mundo está perdido.” – afirmou, com um sorriso no rosto. Minha resposta imediata ao ver o sorriso foi sorrir também. Demorei a processar o que ela havia dito e a ligação entre a expressão e as palavras. Não era um sorriso qualquer. O batom rosa choque fazia parecer que havia alegria naquela face. Porém, as sobrancelhas bem desenhadas denunciavam que aquilo não era uma expressão positiva. Os olhos apresentavam brilho, mas só fui entender depois que o que eles refletiam era pura angústia. Tudo em milésimos. E ela foi, lentamente, se retirando do local; soltando mais algumas palavras, como se falasse sozinha; como se estivesse se desligando do mundo e caindo em eterno pesar. Fechou a porta e nos deixou remoendo o silêncio.

Escrito em setembro de 2016.

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