Com para ação

Algumas coisas não são comparáveis. Mas, é de nossa cultura – ou mesmo de nossa natureza – comparar. Remeter o novo a algo anterior. Buscamos sempre o conforto e o controle e comparar nos leva a acreditar que somos capazes de tê-los.
Nossa ignorância, nossa pequenez, nossa ingenuidade… Nossa incompletude nos faz sempre estar procurando as peças de um quebra-cabeça que ela mesma inventou. Criamos e alimentamos o medo do novo até que ele vire monstro e nos engula, ao invés de aceitar que somos seres em eterno aprendizado e devemos, na verdade, mergulhar nas mudanças apenas com a cautela necessária para a sobrevivência, com autoconfiança – pois somos abençoados com a capacidade de adaptação.
Nosso erro é o fanatismo em comparar o incomparável a uma experiência prévia, nos impedindo de nos adaptarmos. Nos prendemos ao já conhecido e deixamos de explorar a vida. Por medo da Morte. A própria, máxima e divina transformação. Aquela que é vista como a maior ameaça de todas.
Deixamos de perseguir uma carreira artística, mesmo ouvindo o canto das musas, pois lembramos de algum conhecido que sofreu por falta de dinheiro por não conseguir vender seus quadros. O canto, então, é sobreposto pelo barulho e poluição da estrada que diz-se levar à estabilidade financeira.
Deixamos de vivenciar plenamente o amor, mesmo que a conexão seja suficiente, pois lembramos de algum relacionamento do passado que nos drenou toda a vitalidade. A conexão, então, se quebra e nos vemos com mais uma rachadura no coração.
Abrimos mão de inúmeras possibilidades, para continuarmos agarrados ao que fomos ensinados a acreditar que é confortável. O conforto, assim, se torna nosso inferno particular. Aquilo que parecia ser controle é o que acaba nos controlando.
Nos fechamos dentro de nós mesmos de tal forma, com tamanho medo do que há fora… Procuramos a paz, mas encontramos somente a imobilidade. Caímos no que deveras mais temíamos: a impotência. Passamos a desejar a morte. Não como o que ela realmente é, mas como o que sempre nos assustou por acharmos que fosse: encerramento.
E as comparações como eterna tortura. Fulano passou por inúmeras e inimagináveis dificuldades seríssimas, mas continua firme e segue esbanjando seu sorriso verdadeiro e esperançoso; enquanto nós mal suportamos a ideia de precisar pegar um ônibus lotado às 6am. De que vale nossa inútil, mal agradecida, incapaz e lamentável existência, então? Fulano merece, tem garra, deixe ele, Deus abençoe. Vamos colocando o pé no freio e aguardando a parada total. É só o que nos resta. Afinal, somos os motoristas de nossas vidas e temos, ao menos, o direito ao conforto desse assento velho e ao controle desse freio gasto. Não é?
Compare.
Pare.

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