Em branco

Nesta manhã, uma moça desconhecida está a minha frente no ponto de ônibus. Prestei atenção nela por causa dos sapatos: brancos. Confeção simples, daquelas que a linha da costura aparece, juntando aquela sola de material bege ao tecido. Não parece muito confortável. O que leva uma pessoa a sair de casa de manhã vestindo sapatos assim e, muito provavelmente, passar o dia inteiro com eles? O pensamento me fez analisar o resto de suas vestimentas.

Tudo é branco. Calça skinny, blusa de manga média, também justa. E… só. Afinal, está ridiculamente quente como sempre. Quem se atreveria a vestir alguma peça a mais?

Ela carrega uma bolsa, ou mochila, que confesso que ignorei por não ser branca e segui com a análise até o cabelo. Cacheado. Sei lá a categoria de cachos, mas estão mais para ondulações do que para espirais. Vejo brilho, uniformidade, uma cor natural e comprimento médio. Parece bem cuidado e/ou pouco processado.

Talvez ela seja enfermeira ou estudante de algum curso da Saúde. Está indo trabalhar ou estudar. Mas, quem sou eu para definir uma pessoa pela forma como está vestida, se nem as pessoas que amo sei quem são de verdade? E o que é verdade? Há uma própria de cada pessoa, ou uma única e compartilhada que, muitas vezes, tem partes ocultadas e acaba sendo não-compartilhada?

Não sei! A moça me passa a ideia de ser ligada à Saúde de alguma forma porque é símbolo dessa área se vestir completamente de branco. Mas, reconheço que existe a possibilidade de meu julgamento estar completamente errado, afinal, é uma desconhecida.

Começo a pensar que tudo o que vemos é símbolo, referência. Sempre vamos tentar conectar nossas experiências a algo já conhecido. Ok, isso nem é pensamento verdadeiramente meu. Apenas mais uma referência. Semiótica? Filosofia da linguagem? Sei lá! Algo que já estudei e já esqueci.

O que ficou na minha cabeça e ressurgiu agora como reflexão sobre a vida é que entendemos o mundo pela leitura. Lemos os símbolos, ou o que achamos ser símbolo, encaixamos com uma referência prévia do que talvez poderia significar e: pá! Atribuímos como O Significado Verdadeiro.

Meu ônibus vem vindo e quem dá o sinal primeiro? Ela. Eu subo por último e fico tentando observar. Ela demora um pouquinho na catraca e percebo que entrega algo ao cobrador. Pagou com dinheiro, então. Sem passe estudantil. Enfermeira? Quando eu passo pela catraca, vejo que ela pegou o último lugar vago. Sortuda!

Chego ao fundo do ônibus e apoio meu corpo para continuar escrevendo – mesmo que só vá terminar dias depois, sentada em minha cama. Depois de um tempo, um homem se levanta lá na frente e seu lugar fica vago pelos segundos suficientes. Vou e me sento. Estou bem próxima à moça agora e posso observar melhor. Só não posso exagerar. Nem quero. Minha intenção é apenas escrever e refletir um pouco, não “stalkear” ela.

Percebo que seu cabelo é levemente diferente do que eu tinha guardado na memória. Aqui, estou escrevendo justamente sobre o cabelo – aquele trecho acima. Relato, ignorando a memória anterior de um cabelo mais longo, cheio e de cachos mais apertados e espirais. Ela se levanta e… o que é aquilo? Luzes? Mechas “califone”? Mechas o quê mesmo? Como chama? “Ombrê”? As pontas do cabelo parecem mais claras! E aqueles trocentos vídeos do YouTube sobre cabelos não me fizeram memorizar o nome irrelevante de cada tipo de luzes e mechas existentes. O que importa é que o cabelo da moça parece um pouco descolorido nas pontas e já escrevi que era pouco processado! Ela desce. É o ponto da Católica, a universidade em que estudei. Então ela é estudante! Deixo o cabelo para lá e foco na nova informação. Ou, não…

Na verdade, começo a pensar em quando eu estudava ali. Começo a pensar o quanto ainda sou atraída por aquele lugar, como se uma parte de mim vivesse ali dentro. Mas, tudo mudou tanto! Pinturas, reformas, pessoas, o ambiente no geral. Já é outro lugar e eu insisto em lê-lo como antes. Insisto. Resisto. Resisto a aprender uma nova referência.

Minha leitura só leva a interpretações erradas? Talvez eu tenha medo da verdade. Sei que tenho medo de estar errada. Talvez a insistência naquilo que, no fundo, sei ser erro seja minha forma de validá-lo como verdade. Assim, vou me enganando.

Enfim, espero que aquela moça tenha tido um bom dia.

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