Incertezas

Há dez anos nasceu um amor,
Entre duas crianças.
Machucou, enfureceu, adoeceu e abandonou,
Mas em dez anos não se acabou.
Um amor tão jovem e ingênuo que nem sabia nada sobre si mesmo.
Que foi se formando e crescendo
Conforme aqueles que juntou passavam por seu próprio desenvolvimento.

Outro foi para um lado e um foi para outro.
Caminhos que nunca se descruzaram realmente
Já que o amor sempre os juntava novamente.

E em dez anos de existência,
Cá e lá estão suas crianças,
Separadas por incertezas
Tão assustadoras aos olhos delas
E tão minúsculas frente às forças do Universo.

Então, ambas, cada uma em seu momento, perguntam a tal Majestade:
“Será que estou no caminho certo?”
E suas vozes apenas ecoam.
Meio a quartos escuros, mentes confusas e sentimentos abafados.

Amor orgulhoso que só divide sua resposta com o Tempo!

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Com para ação

Algumas coisas não são comparáveis. Mas, é de nossa cultura – ou mesmo de nossa natureza – comparar. Remeter o novo a algo anterior. Buscamos sempre o conforto e o controle e comparar nos leva a acreditar que somos capazes de tê-los.
Nossa ignorância, nossa pequenez, nossa ingenuidade… Nossa incompletude nos faz sempre estar procurando as peças de um quebra-cabeça que ela mesma inventou. Criamos e alimentamos o medo do novo até que ele vire monstro e nos engula, ao invés de aceitar que somos seres em eterno aprendizado e devemos, na verdade, mergulhar nas mudanças apenas com a cautela necessária para a sobrevivência, com autoconfiança – pois somos abençoados com a capacidade de adaptação.
Nosso erro é o fanatismo em comparar o incomparável a uma experiência prévia, nos impedindo de nos adaptarmos. Nos prendemos ao já conhecido e deixamos de explorar a vida. Por medo da Morte. A própria, máxima e divina transformação. Aquela que é vista como a maior ameaça de todas.
Deixamos de perseguir uma carreira artística, mesmo ouvindo o canto das musas, pois lembramos de algum conhecido que sofreu por falta de dinheiro por não conseguir vender seus quadros. O canto, então, é sobreposto pelo barulho e poluição da estrada que diz-se levar à estabilidade financeira.
Deixamos de vivenciar plenamente o amor, mesmo que a conexão seja suficiente, pois lembramos de algum relacionamento do passado que nos drenou toda a vitalidade. A conexão, então, se quebra e nos vemos com mais uma rachadura no coração.
Abrimos mão de inúmeras possibilidades, para continuarmos agarrados ao que fomos ensinados a acreditar que é confortável. O conforto, assim, se torna nosso inferno particular. Aquilo que parecia ser controle é o que acaba nos controlando.
Nos fechamos dentro de nós mesmos de tal forma, com tamanho medo do que há fora… Procuramos a paz, mas encontramos somente a imobilidade. Caímos no que deveras mais temíamos: a impotência. Passamos a desejar a morte. Não como o que ela realmente é, mas como o que sempre nos assustou por acharmos que fosse: encerramento.
E as comparações como eterna tortura. Fulano passou por inúmeras e inimagináveis dificuldades seríssimas, mas continua firme e segue esbanjando seu sorriso verdadeiro e esperançoso; enquanto nós mal suportamos a ideia de precisar pegar um ônibus lotado às 6am. De que vale nossa inútil, mal agradecida, incapaz e lamentável existência, então? Fulano merece, tem garra, deixe ele, Deus abençoe. Vamos colocando o pé no freio e aguardando a parada total. É só o que nos resta. Afinal, somos os motoristas de nossas vidas e temos, ao menos, o direito ao conforto desse assento velho e ao controle desse freio gasto. Não é?
Compare.
Pare.

Carta de aniversário

Hoje é segunda-feira. Uma rara segunda-feira em que acordei bem.
Faz um tempo que minha rotina tem sido estar fora de combate nesse dia da semana. Mas, hoje sinto como se eu tivesse vencido vários rounds seguidos – e ainda estivesse com a barra de especial cheia.
Por quê?
Mais do que descobrir o motivo, eu queria que você visse como estou.
Talvez esteja “vendo”. Talvez você seja grande parte do motivo.

É o oitavo dia de janeiro. Seria teu aniversário e faria cinquenta e oito anos. A internet diz que, de acordo com teu signo chinês, teu número da sorte é o 8. Olhei o horário agora e era 16:28… A incidência do número me deixou perplexa.

Gostaria de conversar contigo e descobrir se realmente era teu número da sorte ou se ao menos gostava dele.
Gostaria de conversar contigo e pedir perdão por não saber a data de teu nascimento até o fim de semana passado.
Gostaria de pedir perdão por não ter nenhuma recordação de passar teu aniversário contigo.
Gostaria de pedir perdão por não lembrar de ter dito “parabéns”, nunca.
E, acima de tudo, peço perdão por nunca ter dito claramente, olhando nos teus olhos, com toda minha força vital:

“Eu amo você, pai”.

 

Agora é impossível…

Há 13 anos que é impossível.
Curiosamente, treze é o número da Morte.
A suprema inevitável que te levou de mim tão cedo.

Mas, sabia que nós fizemos as pazes?
Ela é extremamente sábia e me ensinou muitas coisas. Não tenho mais ódio dela, apesar de toda dor que provoca.
Apesar de todo sofrimento, toda injustiça, toda punição, toda maldição, toda negatividade que caiu sobre mim, acredito que estou seguindo em um caminho bom.
Acho que ficaria orgulhoso.

E gostaria que soubesse que decidi me inspirar em você. No você que eu conheci. O você que foi um pai perfeito para mim. Mesmo que o conceito de perfeição aqui tenda ao fantasioso. Saiba que o tenho como um verdadeiro herói – e do meu arquétipo favorito.

 

Nunca. Nunca mais.
De forma alguma poderei dizer nada disso diretamente.
Mas deixo escrito com puro sentimento para que seja compreendido, ao menos, pelas partes de ti que ainda vivem em teus descendentes e em todos aqueles aos quais um dia fez bem.

Ceverino Riveros Lopez, Rafe, Ralph… meu querido pai…

Sempre! Para sempre!
EU AMO VOCÊ!

 

Da sua pequena princesa,
Scarlet Hezel.

Queda e ascensão

Caí.
Hoje caí.
Depois de muito tempo. Depois de acreditar que já estava bem recuperada.
Caí e todas as memórias de queda vieram de uma vez, enquanto meu corpo pairava no ar.

Revivi as outras quedas. “Cuidado pra não cair, hein, porque você pode quebrar algum osso e piorar tua condição”. Enquanto meu corpo caía, pensei se dessa vez eu quebraria algum. Se sim, qual? Mesmo estando teoricamente mais forte, ainda seria um enorme problema fraturar um osso. Quando vou parar de dar trabalho para minha mãe? Eu sou burra. Estou caindo. Ainda sou fraca. Cheguei até aqui mas ainda sou fraca. Caí.

Tão inesperado e tão rápido.
Mas, tantos pensamentos…

No chão, bati uma nádega. Meu corpo desceu totalmente. Torto. A nádega chegou primeiro, mas minha coluna torceu e não tive nem tenho certeza se caí de lado ou de que…
Caí porque escorreguei no banheiro. Como se fosse uma velha que já não pode mais se cuidar sozinha. Fez um barulhão. A cachorra disparou a latir.
Corpos caindo são muito barulhentos mesmo. Lembrei do cara que se jogou do prédio e passou do meu lado na janela, provocando um estrondo quando encontrou o plano. Ouvi e olhei. Noite. Achei que era uma tora de madeira. É, acho que corpos caídos soam como toras de madeira.
Pensei que iam achar estranho aqui em casa um barulho de tora de madeira no meio da madrugada.
Quando vou parar de dar trabalho? Não queria preocupar ninguém.

Bati a bunda e levantei no mesmo instante! Como alguém que disfarça comicamente um pequeno erro por vergonha. Leve pressão na coluna, mas, já que consegui levantar rápido, nenhum osso quebrado. De novo de pé. Tão rápido… Os pensamentos continuaram bombardeando minha mente.

Voltei ao chão, agora por vontade própria. Dobrei as pernas e apoiei elas e os braços no chão.
Chorei.
Eu caí…
De novo…

Mas nesse momento vieram pensamentos mais variados. Felizmente, consegui focar nos que eram positivos.
Não importa que caí, o que importa é como reagi; o que importa é como consegui girar meu corpo, instintivamente, a fim de fazer ele receber o impacto em uma área mais revestida de carne e de forma que ele chegasse o mais horizontalmente possível ao chão, para que esse impacto fosse melhor distribuído. O que importa é o quão rápido eu levantei. O que importa é o quão ágil eu fui.

O que importa é como fui capaz de sobreviver, superar e me manter firme diante dessa queda e de todas as outras – literais e figurativas.

As quedas são inevitáveis. A dor é inevitável. A gravidade é parte da ordem natural e perder o equilíbrio, escorregar, é situação comum nas probabilidades da Existência.
Acredito que caí ali justamente para levantar e perceber isso tudo.

Sim, eu caí.
E daí?

Trabalho de Conclusão

Banca cancelada pois o aluno cometeu suicídio.
Sofria por ser incapaz de terminar seus projetos e cumprir com suas obrigações, provocando desgosto naqueles que mais admirava. Desgosto mascarado por sorrisos e mensagens de motivação: sempre o davam uma segunda chance.
Milionésima segunda. Já entediados, mas ainda tentando se convencer que agiam por esperança; quando, na verdade, era apenas por hábito.
Sofria por falta de punição. Desejava a própria execução. Queria se decapitar, mas desistiu da ideia logo no planejamento, que estava muito difícil. Apenas se lançou de cima de uma ponte, então. Iludido que conseguiria, finalmente, dar fim a alguma coisa. Morreu.
Mas, falhou: frustrou ainda mais aqueles que o suportavam, transformando seu tédio em eterno pesar.
De novo, falhou: teve seu caso registrado em palavras e prosseguiu no tempo assombrando os outros como um morto-vivo imaterial.

Nota final:   .

Falhar por desistência de si mesmo é a única falha imperdoável.

Reflexões sobre maternidade

A fêmea humana só deixa de ser cria quando se torna mãe. Não necessariamente de sua própria cria, mas de irmãos, parceiros, amigos, até mesmo daqueles cujos genes possibilitaram sua existência. Maternidade, na maioria das vezes, forçada sobre ela.

O ideal é ela primeiro tornar-se mãe de si mesma. Caso isso não ocorra, a maternidade virá forçadamente e ela não saberá como agir, pois ainda é uma cria – com responsabilidade de criar outra.

Algumas conseguem tornarem-se mães de si mesmas sob essa maternidade forçada. Porém, a maioria que ainda não conseguiu deseja ser sempre cria e acaba perdida por não poder.

Um macho, no entanto, é sempre cria. Isso que o dá a ilusão de liberdade e força. A incompreensão das características de mãe. O macho pode tornar-se pai, mas um pai é apenas uma tentativa de reprodução da figura materna. E não digo isso como insulto. Pais são igualmente importantes e sei bem a falta que faz um.

O fato é que um macho humano deve almejar ser mãe, apesar de nunca conseguir. Seguindo esse caminho, conseguirá ser verdadeiramente pai. De si próprio e de outros. Um macho que não procura ter características maternas é incapaz de ser pai, pois seu instinto de cria se sobrepõe a tudo. Quando cai sobre ele um tipo de paternidade forçada, o conflito interno é ainda maior que o da fêmea, pois ele é e sempre será cria. Desse modo, parece mais injusto no caso do macho.

A despeito de tudo isso, a Natureza é Mãe e tem plena consciência de suas ações. As dificuldades que ela deixa suas crias passarem são puramente meios de fortalecê-las.

Cloudy tree

She is born from the ground. Her roots spreading deep inside the Earth.
But she goes beyond the surface and desires to reach the skies. Those fascinating colors. She wants all of them. And is most fascinated by the white of the clouds which contains them all together.

Nevertheless, she cannot ascend as much. Gravity makes sure to have her grounded still.
And she starts feeling trapped. Trapped by her own Nature which physically restrains, yet gives her the possibility to think she could live happier if she was able to fly and leave everything else behind to give in to the Unknown.

She becomes so frail. So frail she embraces the ground, wishing to just melt there and disappear.

However, when she reaches the infernal heat of the Earth’s core, she can understand:
she belongs right where she is, between earth and air; and she should be thankful for being part of both.

Then, she rises again. Craving for, but also comprehending the limitless sky.

And so she breeds her own clouds, completing herself

and her world.

Sozinhos não somos

Por mais pacífico que pareça o retiro em isolamento total, ele é antinatural. Não existe paz se não existir a possibilidade de guerra. Não existe possibilidade de guerra sem o outro. Não existe paz sem o outro.
Não que a possibilidade de guerra e as guerras que realmente acontecem sejam “boas”, mas, se não existirem, o que deveria ser paz se torna um nada. Sem o outro, os sentimentos, os pensamentos, as ações, e a existência do Eu como um todo se tornam um nada. Ou seja, negar o outro é cancelar sua própria existência.
Existência é um complexo, uma engrenagem de medidas indefiníveis, infinita. Um todo que é um. Partes do mesmo. Desde as menores partículas descobertas pela ciência humana, até o que só temos a capacidade de cogitar que existe, de tão fora do nosso conhecimento que está.
O outro não é apenas aquele companheiro de espécie: tua mãe, teu vizinho, aquela celebridade fútil ou o atual presidente/etc de teu país. O outro é também cada outra parte do teu próprio corpo, do teu próprio tempo, do teu próprio destino. Cada sinapse aí que neste exato momento que não está acontecendo em função do entendimento deste texto, mas de OUTRA coisa. Teu pulmão é o outro do teu cérebro, por exemplo. Separe os dois e tente viver. Impossível. Inconcebível. Você, teu cérebro e teu pulmão já não “são” mais. “Você” já não “é” mais. Morte seguida de inexistência. E por quê inexistência? Pela negação da existência, que é o todo. Que é o Eu, o você e o outro.
Só sobrevive à Morte, digamos assim, quem se permite transformar. Para isso, é necessário ter a consciência do funcionamento do todo.
Negar o outro é negar a si mesmo. Portanto, sozinhos nem somos.

Choque rosa

Não sei se ela entrou ali por obrigação. Nem parecia, mas, considerando que estava trabalhando, provavelmente foi. Conversou conosco e conferiu algumas coisas no quarto. Quando estava a se retirar, perguntou se tínhamos conhecimento de um caso de corrupção e morte em seu meio profissional, divulgado pela mídia nos últimos dias. Eu havia visto, superficialmente. Comentei, em resposta, e não obtive tanta atenção. “É como minha vó dizia: esse mundo está perdido.” – afirmou, com um sorriso no rosto. Minha resposta imediata ao ver o sorriso foi sorrir também. Demorei a processar o que ela havia dito e a ligação entre a expressão e as palavras. Não era um sorriso qualquer. O batom rosa choque fazia parecer que havia alegria naquela face. Porém, as sobrancelhas bem desenhadas denunciavam que aquilo não era uma expressão positiva. Os olhos apresentavam brilho, mas só fui entender depois que o que eles refletiam era pura angústia. Tudo em milésimos. E ela foi, lentamente, se retirando do local; soltando mais algumas palavras, como se falasse sozinha; como se estivesse se desligando do mundo e caindo em eterno pesar. Fechou a porta e nos deixou remoendo o silêncio.

Escrito em setembro de 2016.