Sozinhos não somos

Por mais pacífico que pareça o retiro em isolamento total, ele é antinatural. Não existe paz se não existir a possibilidade de guerra. Não existe possibilidade de guerra sem o outro. Não existe paz sem o outro.
Não que a possibilidade de guerra e as guerras que realmente acontecem sejam “boas”, mas, se não existirem, o que deveria ser paz se torna um nada. Sem o outro, os sentimentos, os pensamentos, as ações, e a existência do Eu como um todo se tornam um nada. Ou seja, negar o outro é cancelar sua própria existência.
Existência é um complexo, uma engrenagem de medidas indefiníveis, infinita. Um todo que é um. Partes do mesmo. Desde as menores partículas descobertas pela ciência humana, até o que só temos a capacidade de cogitar que existe, de tão fora do nosso conhecimento que está.
O outro não é apenas aquele companheiro de espécie: tua mãe, teu vizinho, aquela celebridade fútil ou o atual presidente/etc de teu país. O outro é também cada outra parte do teu próprio corpo, do teu próprio tempo, do teu próprio destino. Cada sinapse aí que neste exato momento que não está acontecendo em função do entendimento deste texto, mas de OUTRA coisa. Teu pulmão é o outro do teu cérebro, por exemplo. Separe os dois e tente viver. Impossível. Inconcebível. Você, teu cérebro e teu pulmão já não “são” mais. “Você” já não “é” mais. Morte seguida de inexistência. E por quê inexistência? Pela negação da existência, que é o todo. Que é o Eu, o você e o outro.
Só sobrevive à Morte, digamos assim, quem se permite transformar. Para isso, é necessário ter a consciência do funcionamento do todo.
Negar o outro é negar a si mesmo. Portanto, sozinhos nem somos.

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Choque rosa

Não sei se ela entrou ali por obrigação. Nem parecia, mas, considerando que estava trabalhando, provavelmente foi. Conversou conosco e conferiu algumas coisas no quarto. Quando estava a se retirar, perguntou se tínhamos conhecimento de um caso de corrupção e morte em seu meio profissional, divulgado pela mídia nos últimos dias. Eu havia visto, superficialmente. Comentei, em resposta, e não obtive tanta atenção. “É como minha vó dizia: esse mundo está perdido.” – afirmou, com um sorriso no rosto. Minha resposta imediata ao ver o sorriso foi sorrir também. Demorei a processar o que ela havia dito e a ligação entre a expressão e as palavras. Não era um sorriso qualquer. O batom rosa choque fazia parecer que havia alegria naquela face. Porém, as sobrancelhas bem desenhadas denunciavam que aquilo não era uma expressão positiva. Os olhos apresentavam brilho, mas só fui entender depois que o que eles refletiam era pura angústia. Tudo em milésimos. E ela foi, lentamente, se retirando do local; soltando mais algumas palavras, como se falasse sozinha; como se estivesse se desligando do mundo e caindo em eterno pesar. Fechou a porta e nos deixou remoendo o silêncio.

Escrito em setembro de 2016.

Minha morte

A Scarlet morreu.
Não sobreviveu à meningite.
Aquela jovem risonha, meiga, gentil e bonitinha, já não está mais entre nós.
Meus pêsames.
Mas, pensando bem, será que ela existia de verdade?
Será que o que você conheceu não foi apenas um cosplay de anime girl?
A Scarlet que eu conheci era uma farsa. Aquele sorriso fofo era pura enganação. Servia para esconder o tédio e o incômodo. Aquele estilo todo e as horas que ela dedicava para se arrumar eram apenas para mascarar os maus-tratos contra seu próprio corpo. Secretamente, ela já estava se matando. Se torturava para enfraquecer e esperava a morte chegar. Deitava em sua cama como se deita em um caixão. Afinal, apesar da atração por facas e locais altos, não considerava o suicídio explícito uma boa opção, porque estragaria seu disfarce.
Esperou, esperou, e a Morte chegou. Chegou para resgatar o que ainda havia de verdadeiro nela. Chegou para dilacerar o casulo que a sufocava e dar-lhe a única coisa que realmente desejava: suas asas.
Apesar disso, houve um preço a ser pago, pois a Morte não beneficia ninguém de graça.
A Scarlet que você conheceu… morreu.
Morreu no processo. Já estava muito fraca acabou não resistindo.
O que restou foi sua essência. A larva pelada. Aprendiz renascida, com todos os atributos resetados.
XIII deu lugar a 0 e vinte e quatro anos foram completados na UTI, que mais parecia uma maternidade.
Pois é,
a Scarlet morreu.
O que restou… foi eu.
Eu, que ainda estou aprendendo a andar, mas que, em breve, vou poder voar.
Eu, que vou vomitar toda podridão que esse corpo acumulou.
Eu, que vou sentir novamente aquilo que está reservado apenas aos plenos.
Contudo, o fantasma dela insiste em me assombrar; e o medo vem tomando conta. Portanto, preciso escrever para deixar claro para ela, para mim e para todos, que
aquela Scarlet morreu,
e quem vive agora sou eu.

Pensamentos de chuveiro

A água cai e o pensamento vai. Vai voando, vai lavando. Que bom que a água não lava o pensamento, porque até as impurezas pensadas podem ser bonitas. É claro, isso depende do teu entendimento de beleza. Ver beleza na impureza…

…se eu completar com um “dureza”, você vai rir?

Vai achar idiota e vai mandar eu ir tomar banho. Mas, bem, eu já fiz isso.

Água e pensamento são bem parecidos, né? Ambos são hiperativos. A água não para quieta dentro do copo. Se transforma, evapora. Põe dentro da garrafa… ela ainda tenta sair.

Ou você acha que não é mais água se ela muda seu estado?

Se meu pensamento ‘muda de estado’, eu ainda sou eu?

 

Escrito em maio de 2014 e postado, originalmente, no Nyah!Fanfiction.

Incontinência reflexiva

Eu tava ali mijando

Me percebi pensando

Nos litros de resíduo que caem fora da privada

Se passando por água potável

E no tanto de pessoas

Que lambem toda a beirada

Achando que é coisa admirável

 

Me espanta o tanto de idiotice

Assinada por: Lispector, Clarice

Assassinada por tanta burrice

De um povinho que não se importa

Em manchar o nome de quem não conhece

Esse povinho pior que porta

Pra quem você explica, significa e verifica

E “eles vira”, já esquece

 

Não estou falando de gramática

Não torne a leitura dramática

Sei que já fizeram essa associação

Mas eu gosto e repeti

Sei que não tenho maestria na ação

Mas quero ver o texto fluir

 

Voltando aos tolos…

Quem dera eles fossem mais como no Tarô

Ou como nos livros lidos pelo meu avô

Eu quero ser um tolo daqueles!

 

Mas se fingir de retardado pode machucar

Ter seu entusiasmo esmagado até o choro arrancar

Porque ninguém defende o tolo

Do rei

 

Lembrei:

Amanhã tem compromisso

Continuo submisso

A essa contagem falsa do tempo

 

Lutei

Para continuar dormindo

Para continuar sorrindo

Naquele sonho de domingo

Mas o cachorro continua latindo

E perfurando meu ouvido!

 

O que eu ganho criticando?

Me aproveito do contrabando

Eu tô sendo contra o bando?

Não

 

Eu não tomo contraste

Me põe longe desse traste

E trate de descontrair o ambiente

E me deixar ciente

De que posso descontrair meus esfíncteres anais

 

Eu não tomo refrigerante

Me tira dessa festa entediante

E levante, para eu nem perceber aquele camarada

Que tá olhando minha namorada

Não é porque ela mostra as pernas que tem que ser secada

 

De novo no banheiro

Algo tão corriqueiro

Aí olho no espelho

Devia cortar o cabelo…

Devia?

 

Só que não tá me incomodando

Eu não tô trabalhando

Não tem ninguém me pressionando

E não tem ninguém me impressionando

 

Sabe, eu devia era usar uma peruca

Fazer cosplay de Urushibara Ruka

E ser feliz no meio dos que sabem de quem tô falando

 

Mas o que eu procuro? Um posto seguro?

 

Em Porto Seguro, será que é seguro o que eu procuro?

Mas o que é seguro?

 

Eu nem tenho seguro…

Nem procuro ter

Se eu morrer,

Vão ter que se segurar

Pra não ir lá, abrir o caixão e me matar

 

Você me pergunta do foco

Te respondo com um “fuck you”

Eu não pretendia ter

Quer objetivos? É meu TCC que você tem que ler

Mas, espera… esse eu ainda nem comecei a fazer…

 

E eu termino assim

Tudo aqui é baboseira, sim

Mas é um pouco de mim

Meu pensamento vira seu

E eu reafirmo meu eu

A minha existência na sua compreensão

 

Aquela imagem dadaísta passa pela cabeça

Vem a vontade

Lembro agora de Kant

Não obstante

Que obsta… leio: “que bosta”

E aperto o pause nessa imensidão

 

Eu preciso mijar, de novo

 

E vou…

E como tudo começou

Acaba (por hoje)

Porque bebo muita água

 

Escrito em maio de 2014 e postado, originalmente, no Nyah!Fanfiction.

Jornada Indeterminada


.
          Por pouco pisei perto

.    De um besouro tomando chá

.          Borbulha à céu aberto

.              Sua sopa com cajá

 

Povo, pare e pense

.     Pense e pare

.    Pão com ovo!

. De novo

Há rainha se tornando má

.           Mas sem saber ao certo

Se é a saída ou se ainda será

 

.                    E então, me sai do chão um leitão

.                                                           Tão de ficção

.                                                                   Farejando

.                                Cores de um jardim alado

.                                    Com convicção

.                                             Avistando

.                                               Flores que o mantêm corado

.                                                                     Sem intenção

.                                                                 Provocando

.                                         Dores nos que abalados

.                                                         Estão

 

Cai a responsabilidade, assim, por fim

.                                Toda em cima de mim

.    Um mero visitante

.         Não obstante

O responsável é solúvel!

.    E há probabilidade…

.       De ter dissolvido

 

.                     Ecila, A Dama

.   Saberia convencer no julgamento

. E poderia conceder-me um momento

Para provar que também sou confiável

.          Mas o Norte está favorável

.             Aos tons da Rainha Azul

.              E minha Ecila adorável

.               Agora caminha ao Sul

 

Promises

Young love
Bloomed inside
Childhood friends

They promised each other
They would never grow apart
They would always be together
They would be his and hers forever

Promises made during trusting gazes
Promises made between tender kisses
Promises made behind a hidding spot
Promises made before

Too early

Too naive
Too young
Young love
Gave birth to another child

He had to find a job and found relief in being away
She had to drop school and dropped tears almost everyday
And those beatiful promises
Became silly words only fools say