Queda e ascensão

Caí.
Hoje caí.
Depois de muito tempo. Depois de acreditar que já estava bem recuperada.
Caí e todas as memórias de queda vieram de uma vez, enquanto meu corpo pairava no ar.

Revivi as outras quedas. “Cuidado pra não cair, hein, porque você pode quebrar algum osso e piorar tua condição”. Enquanto meu corpo caía, pensei se dessa vez eu quebraria algum. Se sim, qual? Mesmo estando teoricamente mais forte, ainda seria um enorme problema fraturar um osso. Quando vou parar de dar trabalho para minha mãe? Eu sou burra. Estou caindo. Ainda sou fraca. Cheguei até aqui mas ainda sou fraca. Caí.

Tão inesperado e tão rápido.
Mas, tantos pensamentos…

No chão, bati uma nádega. Meu corpo desceu totalmente. Torto. A nádega chegou primeiro, mas minha coluna torceu e não tive nem tenho certeza se caí de lado ou de que…
Caí porque escorreguei no banheiro. Como se fosse uma velha que já não pode mais se cuidar sozinha. Fez um barulhão. A cachorra disparou a latir.
Corpos caindo são muito barulhentos mesmo. Lembrei do cara que se jogou do prédio e passou do meu lado na janela, provocando um estrondo quando encontrou o plano. Ouvi e olhei. Noite. Achei que era uma tora de madeira. É, acho que corpos caídos soam como toras de madeira.
Pensei que iam achar estranho aqui em casa um barulho de tora de madeira no meio da madrugada.
Quando vou parar de dar trabalho? Não queria preocupar ninguém.

Bati a bunda e levantei no mesmo instante! Como alguém que disfarça comicamente um pequeno erro por vergonha. Leve pressão na coluna, mas, já que consegui levantar rápido, nenhum osso quebrado. De novo de pé. Tão rápido… Os pensamentos continuaram bombardeando minha mente.

Voltei ao chão, agora por vontade própria. Dobrei as pernas e apoiei elas e os braços no chão.
Chorei.
Eu caí…
De novo…

Mas nesse momento vieram pensamentos mais variados. Felizmente, consegui focar nos que eram positivos.
Não importa que caí, o que importa é como reagi; o que importa é como consegui girar meu corpo, instintivamente, a fim de fazer ele receber o impacto em uma área mais revestida de carne e de forma que ele chegasse o mais horizontalmente possível ao chão, para que esse impacto fosse melhor distribuído. O que importa é o quão rápido eu levantei. O que importa é o quão ágil eu fui.

O que importa é como fui capaz de sobreviver, superar e me manter firme diante dessa queda e de todas as outras – literais e figurativas.

As quedas são inevitáveis. A dor é inevitável. A gravidade é parte da ordem natural e perder o equilíbrio, escorregar, é situação comum nas probabilidades da Existência.
Acredito que caí ali justamente para levantar e perceber isso tudo.

Sim, eu caí.
E daí?

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Trabalho de Conclusão

Banca cancelada pois o aluno cometeu suicídio.
Sofria por ser incapaz de terminar seus projetos e cumprir com suas obrigações, provocando desgosto naqueles que mais admirava. Desgosto mascarado por sorrisos e mensagens de motivação: sempre o davam uma segunda chance.
Milionésima segunda. Já entediados, mas ainda tentando se convencer que agiam por esperança; quando, na verdade, era apenas por hábito.
Sofria por falta de punição. Desejava a própria execução. Queria se decapitar, mas desistiu da ideia logo no planejamento, que estava muito difícil. Apenas se lançou de cima de uma ponte, então. Iludido que conseguiria, finalmente, dar fim a alguma coisa. Morreu.
Mas, falhou: frustrou ainda mais aqueles que o suportavam, transformando seu tédio em eterno pesar.
De novo, falhou: teve seu caso registrado em palavras e prosseguiu no tempo assombrando os outros como um morto-vivo imaterial.

Nota final:   .

Falhar por desistência de si mesmo é a única falha imperdoável.

Reflexões sobre maternidade

A fêmea humana só deixa de ser cria quando se torna mãe. Não necessariamente de sua própria cria, mas de irmãos, parceiros, amigos, até mesmo daqueles cujos genes possibilitaram sua existência. Maternidade, na maioria das vezes, forçada sobre ela.

O ideal é ela primeiro tornar-se mãe de si mesma. Caso isso não ocorra, a maternidade virá forçadamente e ela não saberá como agir, pois ainda é uma cria – com responsabilidade de criar outra.

Algumas conseguem tornarem-se mães de si mesmas sob essa maternidade forçada. Porém, a maioria que ainda não conseguiu deseja ser sempre cria e acaba perdida por não poder.

Um macho, no entanto, é sempre cria. Isso que o dá a ilusão de liberdade e força. A incompreensão das características de mãe. O macho pode tornar-se pai, mas um pai é apenas uma tentativa de reprodução da figura materna. E não digo isso como insulto. Pais são igualmente importantes e sei bem a falta que faz um.

O fato é que um macho humano deve almejar ser mãe, apesar de nunca conseguir. Seguindo esse caminho, conseguirá ser verdadeiramente pai. De si próprio e de outros. Um macho que não procura ter características maternas é incapaz de ser pai, pois seu instinto de cria se sobrepõe a tudo. Quando cai sobre ele um tipo de paternidade forçada, o conflito interno é ainda maior que o da fêmea, pois ele é e sempre será cria. Desse modo, parece mais injusto no caso do macho.

A despeito de tudo isso, a Natureza é Mãe e tem plena consciência de suas ações. As dificuldades que ela deixa suas crias passarem são puramente meios de fortalecê-las.

Cloudy tree

She is born from the ground. Her roots spreading deep inside the Earth.
But she goes beyond the surface and desires to reach the skies. Those fascinating colors. She wants all of them. And is most fascinated by the white of the clouds which contains them all together.

Nevertheless, she cannot ascend as much. Gravity makes sure to have her grounded still.
And she starts feeling trapped. Trapped by her own Nature which physically restrains, yet gives her the possibility to think she could live happier if she was able to fly and leave everything else behind to give in to the Unknown.

She becomes so frail. So frail she embraces the ground, wishing to just melt there and disappear.

However, when she reaches the infernal heat of the Earth’s core, she can understand:
she belongs right where she is, between earth and air; and she should be thankful for being part of both.

Then, she rises again. Craving for, but also comprehending the limitless sky.

And so she breeds her own clouds, completing herself

and her world.

Sozinhos não somos

Por mais pacífico que pareça o retiro em isolamento total, ele é antinatural. Não existe paz se não existir a possibilidade de guerra. Não existe possibilidade de guerra sem o outro. Não existe paz sem o outro.
Não que a possibilidade de guerra e as guerras que realmente acontecem sejam “boas”, mas, se não existirem, o que deveria ser paz se torna um nada. Sem o outro, os sentimentos, os pensamentos, as ações, e a existência do Eu como um todo se tornam um nada. Ou seja, negar o outro é cancelar sua própria existência.
Existência é um complexo, uma engrenagem de medidas indefiníveis, infinita. Um todo que é um. Partes do mesmo. Desde as menores partículas descobertas pela ciência humana, até o que só temos a capacidade de cogitar que existe, de tão fora do nosso conhecimento que está.
O outro não é apenas aquele companheiro de espécie: tua mãe, teu vizinho, aquela celebridade fútil ou o atual presidente/etc de teu país. O outro é também cada outra parte do teu próprio corpo, do teu próprio tempo, do teu próprio destino. Cada sinapse aí que neste exato momento que não está acontecendo em função do entendimento deste texto, mas de OUTRA coisa. Teu pulmão é o outro do teu cérebro, por exemplo. Separe os dois e tente viver. Impossível. Inconcebível. Você, teu cérebro e teu pulmão já não “são” mais. “Você” já não “é” mais. Morte seguida de inexistência. E por quê inexistência? Pela negação da existência, que é o todo. Que é o Eu, o você e o outro.
Só sobrevive à Morte, digamos assim, quem se permite transformar. Para isso, é necessário ter a consciência do funcionamento do todo.
Negar o outro é negar a si mesmo. Portanto, sozinhos nem somos.

Choque rosa

Não sei se ela entrou ali por obrigação. Nem parecia, mas, considerando que estava trabalhando, provavelmente foi. Conversou conosco e conferiu algumas coisas no quarto. Quando estava a se retirar, perguntou se tínhamos conhecimento de um caso de corrupção e morte em seu meio profissional, divulgado pela mídia nos últimos dias. Eu havia visto, superficialmente. Comentei, em resposta, e não obtive tanta atenção. “É como minha vó dizia: esse mundo está perdido.” – afirmou, com um sorriso no rosto. Minha resposta imediata ao ver o sorriso foi sorrir também. Demorei a processar o que ela havia dito e a ligação entre a expressão e as palavras. Não era um sorriso qualquer. O batom rosa choque fazia parecer que havia alegria naquela face. Porém, as sobrancelhas bem desenhadas denunciavam que aquilo não era uma expressão positiva. Os olhos apresentavam brilho, mas só fui entender depois que o que eles refletiam era pura angústia. Tudo em milésimos. E ela foi, lentamente, se retirando do local; soltando mais algumas palavras, como se falasse sozinha; como se estivesse se desligando do mundo e caindo em eterno pesar. Fechou a porta e nos deixou remoendo o silêncio.

Escrito em setembro de 2016.

Minha morte

A Scarlet morreu.
Não sobreviveu à meningite.
Aquela jovem risonha, meiga, gentil e bonitinha, já não está mais entre nós.
Meus pêsames.
Mas, pensando bem, será que ela existia de verdade?
Será que o que você conheceu não foi apenas um cosplay de anime girl?
A Scarlet que eu conheci era uma farsa. Aquele sorriso fofo era pura enganação. Servia para esconder o tédio e o incômodo. Aquele estilo todo e as horas que ela dedicava para se arrumar eram apenas para mascarar os maus-tratos contra seu próprio corpo. Secretamente, ela já estava se matando. Se torturava para enfraquecer e esperava a morte chegar. Deitava em sua cama como se deita em um caixão. Afinal, apesar da atração por facas e locais altos, não considerava o suicídio explícito uma boa opção, porque estragaria seu disfarce.
Esperou, esperou, e a Morte chegou. Chegou para resgatar o que ainda havia de verdadeiro nela. Chegou para dilacerar o casulo que a sufocava e dar-lhe a única coisa que realmente desejava: suas asas.
Apesar disso, houve um preço a ser pago, pois a Morte não beneficia ninguém de graça.
A Scarlet que você conheceu… morreu.
Morreu no processo. Já estava muito fraca acabou não resistindo.
O que restou foi sua essência. A larva pelada. Aprendiz renascida, com todos os atributos resetados.
XIII deu lugar a 0 e vinte e quatro anos foram completados na UTI, que mais parecia uma maternidade.
Pois é,
a Scarlet morreu.
O que restou… foi eu.
Eu, que ainda estou aprendendo a andar, mas que, em breve, vou poder voar.
Eu, que vou vomitar toda podridão que esse corpo acumulou.
Eu, que vou sentir novamente aquilo que está reservado apenas aos plenos.
Contudo, o fantasma dela insiste em me assombrar; e o medo vem tomando conta. Portanto, preciso escrever para deixar claro para ela, para mim e para todos, que
aquela Scarlet morreu,
e quem vive agora sou eu.